Como a Engenharia Florestal ajuda a reduzir os impactos do El Niño


Antes que a estiagem diminua a vazão de uma nascente, que um incêndio florestal avance sobre
extensas áreas de vegetação ou que a irregularidade das chuvas comprometa uma safra, existe
um período decisivo: o intervalo entre a previsão climática e a ocorrência dos danos. É nesse
momento que a Engenharia Florestal atua, aplicando conhecimentos e intervenções que reduzem
a vulnerabilidade dos ecossistemas aos efeitos do El Niño.

O El Niño altera os regimes de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta, mas suas
consequências não dependem apenas de sua intensidade. Também são influenciadas pelas
condições do solo, da cobertura vegetal, dos recursos hídricos e do uso da terra. Uma mesma
estiagem pode causar danos muito distintos em territórios conservados ou degradados. Por isso,
a previsão meteorológica precisa ser acompanhada de ações sobre a paisagem.

É justamente sobre essas condições que atua a Engenharia Florestal. O conhecimento das relações
entre solo, vegetação e água orienta práticas que controlam a erosão, favorecem a infiltração e
conservam a umidade. O manejo florestal, a recuperação de áreas degradadas e a proteção de
nascentes, matas ciliares e bacias hidrográficas fazem parte desse conjunto de ações. Não se trata
de impedir a ocorrência do El Niño, mas de diminuir a vulnerabilidade dos territórios aos seus
efeitos.

Essa relação entre clima e condições do território pode ser observada de forma clara nos incêndios
florestais. Grandes incêndios quase nunca começam grandes. Eles ganham intensidade ao
encontrar vegetação seca e contínua, acúmulo de material combustível e condições
meteorológicas favoráveis à propagação das chamas. Os episódios registrados no Brasil em 2023
e 2024 mostraram como estiagens prolongadas podem ampliar o risco de incêndios de grandes
proporções. Aceiros bem planejados, manejo da vegetação, monitoramento e identificação das
áreas mais suscetíveis ajudam a conter o fogo antes que ele se torne incontrolável.

Os mesmos princípios também determinam a disponibilidade de água. É comum imaginar que
uma nascente dependa apenas da vegetação existente ao seu redor. Na realidade, seu
funcionamento depende das condições de toda a microbacia hidrográfica que contribui para sua
recarga. A cobertura vegetal protege o solo, reduz a erosão e favorece a infiltração da água da
chuva. Parte dessa água permanece armazenada no solo e é liberada gradualmente durante os
períodos secos. Conservar uma nascente, portanto, exige cuidar de toda a bacia hidrográfica
responsável por sua produção de água.

Essa conservação do solo e dos recursos hídricos produz reflexos diretos na produção
agropecuária. A tecnologia elevou a produtividade das lavouras, mas a produção continua
dependente da disponibilidade de água, da estabilidade dos solos e de condições climáticas
favoráveis. Florestas e demais formações vegetais não competem com a produção; integram a
infraestrutura natural que sustenta a atividade agropecuária. Regulam o ciclo da água, protegem
os solos e contribuem para maior estabilidade da produção diante das variações do clima.
Os mesmos princípios permanecem válidos quando o cenário deixa de ser rural e passa a ser
urbano. Em ambientes dominados por concreto, asfalto e superfícies impermeáveis, a arborização,
os parques e os corredores verdes reduzem as ilhas de calor, melhoram a qualidade do ar e
favorecem a infiltração da água da chuva. Mais do que elementos paisagísticos, árvores e florestas
urbanas constituem uma infraestrutura ambiental indispensável à adaptação das cidades aos
extremos climáticos.

Hoje, a capacidade de planejar essas intervenções tornou-se ainda maior. Sensoriamento remoto,
geoprocessamento, sistemas de informação geográfica (SIG), modelagem computacional, drones
e inteligência artificial permitem monitorar continuamente a cobertura vegetal, identificar áreas
suscetíveis ao fogo e orientar intervenções com maior precisão. Quando associados às previsões
meteorológicas e ao conhecimento de campo, esses recursos tornam as decisões mais rápidas,
eficientes e precisas.

Embora esses princípios sejam gerais, sua aplicação varia conforme as características de cada
região. No Brasil, as respostas precisam considerar as diferenças entre Amazônia, Cerrado,
Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa. Cada bioma apresenta características próprias de
clima, solo, vegetação e disponibilidade hídrica, que condicionam sua resposta ao El Niño. Por
isso, reduzir os impactos do fenômeno exige estratégias específicas para cada bioma,
considerando suas particularidades ecológicas e as diferentes formas de uso da terra, tanto em
áreas naturais quanto em florestas plantadas, lavouras, pastagens e espaços urbanos.

O El Niño continuará fazendo parte da dinâmica climática do planeta. A dimensão de seus danos,
entretanto, não é determinada apenas pelo clima, mas pelo estado em que se encontram os
territórios quando os eventos extremos chegam. Entre a previsão, ou mesmo antes dela, e o
desastre existe um tempo precioso para agir. É nesse intervalo que a Engenharia Florestal revela
uma de suas maiores contribuições para a sociedade: preparar a paisagem para que a estiagem,
os incêndios florestais e a escassez de água encontrem territórios menos vulneráveis e uma
sociedade mais protegida.

Cícero Ramos, Engenheiro Florestal e vice-presidente da Associação Mato-grossense dos
Engenheiros Florestais (AMEF).

Eleandro Brun, Engenheiro Florestal, professor da UTFPR – Campus Dois Vizinhos e vice-
presidente da Sociedade Brasileira de Engenheiros Florestais (SBEF).